DISCUTINDO SOBRE ASSUNTOS DE INTERESSE DO ENEM

Estou iniciando no blog COMENTÁRIOS TOMBOS um conjunto de miniaulas de Química voltadas para alunos do ensino médio. O objetivo é servir de instrumento para que possam perceber a contextualização da disciplina com os fenômenos do cotidiano, aumentando a margem de acertos no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A linguagem será mais simples possível e os textos serão relativamente curtos, facilitando o entendimento. O conteúdo visa permitir que o vestibulando discuta com o professor os detalhes que, por economia de espaço, não tenho condições de demonstrar no texto. Espero que a iniciativa seja útil.

Fernando Furtado (ac. Odontologia USP Bauru)


Aula 01: A importância dos ÁCIDOS e das BASES para o ENEM

Sendo bastante objetivo e sem mostrar detalhes que são importantes, mas não agora, vamos tomar como exemplo de ácido o Ácido Muriático (vendido em lojas de materiais de construção e usado contra ferrugem), e como exemplo de base a Soda Cáustica (vendida em supermercados). Quimicamente essas substâncias podem ser escritas por fórmulas:

HCl = Ácido Muriático* (Ácido Clorídrico)
NaOH = Soda Cáustica* (Hidróxido de Sódio)

* corresponde ao nome vulgar da substância. Entre parênteses, nome científico.

O que nos interessa aqui é mostrar que ao misturar um ácido com uma base, nada mais estaremos fazendo que unir H (do ácido) ao OH (da base) formando água (substância neutra). Grosso modo, contra um ácido deve-se utilizar uma base e vice-versa. Esse tipo de reação tem grande importância econômica, daí ser de extrema necessidade que o estudante do ensino médio saiba o que significa.

Vamos a uma das aplicações:  ÁCIDOS-BASES na AGRICULTURA

Com frequência agricultores vão ao comércio adquirir sacos e mais sacos de uma substância química que eles conhecem pelo nome de Calcário. Utilizam-na para a chamada  "correção de solo" (também dita correção do pH*). 

* pH significa quantidade de Hidrogênio. Mas adequadamente falando, potencial de íons de Hidrogênio.

Mas o que acontece se o agricultou não aplicar calcário ao solo de sua propriedade?

Se é certo que nem todo solo precisa de correção, também é certo que essa não é a regra geral. A grande maioria dos agricultores não tem conhecimentos básicos de Química, mas todos sabem que a não aplicação do Calcário no solo pode levar à redução da produtividade de uma lavoura (de café, por exemplo). O correto é realizar uma análise de solo (enviando amostras a um laboratório especializado) para que o Agrônomo faça o diagnóstico e receite o medicamento (forma de correção).

De forma simples (para o aluno do ensino médio) vou tentar descrever o que se passa:

A maioria das plantas de importância econômica tem suas raízes fixadas no solo. O solo é feito por uma infinidade de partículas grandes e pequenas, e entre elas há certa quantidade de água (umidade). Essa água presente entre as partículas do solo encontra-se misturada a nutrientes indispensáveis ao desenvolvimento da planta, de forma que quando a raiz  do vegetal absorve água, adquire também esses nutrientes. A parte líquida do solo está sempre sendo renovada, recebendo mais e mais água das chuvas. E para que a planta absorva água, basta que a parte líquida do solo esteja pouco concentrada de outras substâncias. Todos nós já percebemos que quando jogamos sal (de cozinha) ao pé de uma planta tenra, em poucas horas ela murcha. Ou seja, se na parte líquida do solo houver em quantidade considerável substâncias a mais que a água, a planta tem dificuldade de absorção. Em casos extremos perde água para o solo e morre. Trata-se de um fenômeno físico chamado Osmose, que agora não vem ao caso detalhar. Ocorre que das nuvens não caem apenas gotículas dágua, sim, várias substâncias nelas diluídas, advindas da reação química entre os gases e o vapor dágua da atmosfera. Essa reação acontece lá em cima (a quilômetros de altura de nossas cabeças). Parte desses gases que participam de tais reações são nocivos e produzidos pela atividade humana.  São por exemplo gases da combustão do petróleo (como o Gás Carbônico: CO2) ou das chaminés das siderúrgicas (como o gás conhecido por Trióxido de Enxofre: SO3). Quando estes gases reagem com o vapor dágua das nuvens, formam-se ácidos (ou seja, substâncias que contém o H, já falado no início da matéria). Assim se dá na atmosfera a formação dos ácidos.

CO2 + H2O = H2CO3 ( Ácido Carbônico)
SO3 + H2O = H2SO4 (Ácido Sulfúrico)

Dessa forma as nuvens ficam carregadas não apenas de água, sim, água diluída com ácidos como Ácido Carbônico e Ácido Sulfúrico, que chegam ao solo em forma de Chuva Ácida. Quanto maior a poluição atmosférica, mais intensas serão as Chuvas Ácidas. Vale lembrar que os ventos se encarregam de distribuir por extensas áreas as nuvens das regiões densamente industrializadas, fazendo-as chegar sobre o solo das propriedades dos nossos agricultores no interior de Minas.

Portanto, se com o passar dos meses mais e mais ácidos chegam ao solo com a água das chuvas, mais e mais concentrado de ácidos (e portanto de H)  ficará o solo, prejudicando sobremaneira a absorção dágua pela raiz do vegetal. O agricultor utiliza o Calcário sobre o solo pelo simples fato de que esse pó esbranquiçado, barato, adquirido nas lojas de produtos agropecuários, tem o poder de liberar o grupo químico OH (também falado no início da matéria) quando entra em contato com a água solo.

Assim, H (vindo dos ácidos que caíram com a chuva) e OH (vindo da decomposição do Calcário) forma água (substância neutra). Quanto mais apenas água houver na parte líquida do solo, mais facilmente a raiz a absorverá. A absorção dágua é necessária à fotossíntese, processo indispensável à formação dos frutos (grãos) que serão vendidos no comércio para alimentação humana, por exemplo. 

Há na prática dois tipos de Calcário, mas ambos com atuação parecida. No caso mais comum Calcário é o nome vulgar do Carbonato de Cálcio: CaCO3. A decomposição do Calcário envolve formação de um ácido fraco e uma base forte, detalhe extenso para ser dito neste texto, mas que deve ser motivo de reflexão por parte do vestibulando.

Como se vê, não há como dissociar disciplinas como Química e Biologia do Ensino Médio. São inseparáveis para a compreensão do todo. Essa transdisciplinaridade é um dos focos da prova do ENEM, desafio para o vestibulando e para a maioria das escolas públicas (vez que somos filhos de um sistema de ensino com disciplinas compartimentadas, apesar dos vários anos de vigência da LDB de 1996).

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